
Clair Obscur: Expedition 33 vale todo o hype?
Vencedor de múltiplos prêmios no The Game Awards, o RPG da Sandfall Interactive se firma como uma das experiências narrativas mais marcantes da década
Clair Obscur: Expedition 33 chegou cercado de expectativa, curiosidade e certo ceticismo. Um RPG francês, criado por um estúdio estreante, com forte foco narrativo e uma estética artística ousada, dificilmente parecia um candidato natural a dominar premiações globais. Ainda assim, o jogo não apenas correspondeu às expectativas como as superou, tornando-se um dos títulos mais discutidos, analisados e premiados dos últimos anos.
A pergunta que naturalmente surge é direta: Clair Obscur: Expedition 33 é tão bom assim? A resposta curta seria sim — mas a resposta honesta exige contexto, análise e profundidade. Este não é um jogo que se destaca por uma única mecânica ou por um espetáculo superficial; sua força está na soma cuidadosa de narrativa, arte, design e significado.
Um mundo condenado pelo tempo
A premissa central de Clair Obscur: Expedition 33 é tão simples quanto perturbadora: todos os anos, uma entidade conhecida como Paintress pinta um número no horizonte. Todas as pessoas que atingem aquela idade simplesmente deixam de existir. Não há julgamento moral, não há exceções — apenas o fim. A cada novo ciclo, expedições são enviadas para tentar deter esse destino inevitável.
Essa ideia estabelece imediatamente o tom do jogo. Diferente de muitos RPGs que apostam em ameaças grandiosas ou vilões caricatos, aqui o inimigo é abstrato, silencioso e inevitável. O tempo não é apenas um elemento narrativo — ele é o verdadeiro antagonista.
Narrativa madura e existencial
A narrativa de Clair Obscur: Expedition 33 não se contenta em apenas contar uma história. Ela questiona, provoca e convida o jogador à reflexão constante. Temas como mortalidade, legado, propósito e aceitação da finitude são tratados com uma maturidade rara no gênero.
Os personagens não são arquétipos tradicionais de RPG. Eles carregam dúvidas, medos e contradições, reagindo ao mundo de forma crível. Cada diálogo parece cuidadosamente escrito para reforçar a sensação de urgência e fragilidade que permeia toda a jornada.
Combate: tradição com identidade própria
Em termos de jogabilidade, Clair Obscur: Expedition 33 adota um sistema de combate em turnos, mas com sutis elementos em tempo real que adicionam tensão e envolvimento. A proposta não reinventa o gênero, mas o executa com extrema competência e identidade.
Cada batalha carrega peso narrativo, e não apenas mecânico. O jogador sente que cada confronto é mais um passo em uma missão desesperada, reforçando a conexão entre gameplay e história — algo que muitos RPGs tentam, mas poucos alcançam com tamanha coesão.
Direção artística e trilha sonora premiadas
Visualmente, Clair Obscur: Expedition 33 é uma obra de arte interativa. Inspirado pela Belle Époque e pelo surrealismo, o jogo utiliza cenários pintados à mão, cores contrastantes e composições simbólicas para transmitir emoções sem depender de palavras.
A trilha sonora, vencedora de Melhor Música no The Game Awards, atua como um personagem invisível. Melancólica, delicada e ocasionalmente épica, ela amplifica cada momento da jornada e permanece na memória muito após os créditos finais.
Reconhecimento e legado
O impacto de Clair Obscur: Expedition 33 foi consolidado com sua vitória em múltiplas categorias no The Game Awards, incluindo Jogo do Ano, Melhor Narrativa e Melhor Direção de Arte. O reconhecimento não apenas validou o trabalho da Sandfall Interactive, como também sinalizou uma abertura maior da indústria para novas vozes e ideias.
No fim das contas, Clair Obscur: Expedition 33 não é apenas “tão bom assim”. Ele é um lembrete poderoso de que videogames podem ser arte, reflexão e emoção — tudo ao mesmo tempo. Um marco para o gênero e um título que continuará sendo discutido por muitos anos.